Sim, elas estão sobrecarregadas!

18/06/2020

A COVID-19 trouxe profundas transformações no mundo do trabalho, não há como negar.

E qual o impacto dessas transformações para o trabalho da mulher? Penso que, para elas, as mudanças trabalhistas provocadas pela COVID-19 foram e são mais intensas do que para os homens.

Se o trabalho em home office já é difícil para o homem, imagine para a mulher, que faz tudo o que o homem faz e ainda, por uma questão cultural,  arca com as responsabilidades de cuidar dos afazeres da casa, limpeza, alimentação, cuidado com os filhos, da sua educação etc.? Ainda que alguns homens sejam solidários, muitos não compartilham estas atividades com suas companheiras, acarretando um impacto colossal sobre a mulher e afetando sua qualidade de vida, produtividade e psique.

O que dizer da sensação de “desvantagem competitiva” experimentada por algumas profissionais que também são mães, quando estas se comparam a colegas que não têm filhos e podem se dedicar plenamente à carreira e ao desenvolvimento acadêmico? O que dizer das mães-solo, que não têm com quem compartilhar suas agruras?

O home office está demonstrando aspectos positivos e negativos para as mulheres que vivenciam um dia a dia de jornada dupla ou mesmo tripla. Ponto positivo: trabalhar em casa. Ponto negativo: trabalhar em casa…

Por exemplo: como fazer crianças muito pequenas entenderem que, embora a “mamãe esteja em casa”, ela está trabalhando e não pode dar a elas a atenção desejada? Sim, muitos pais entram em cena e ajudam, mas tradicionalmente os filhos cobram mais a atenção materna do que paterna.

E como conciliar a educação dos filhos, que agora se faz em casa, por meio das aulas em formato de “live”, geralmente em horários coincidentes com o expediente dos pais?  E o que dizer da perda da socialização das crianças que, com toda sua energia antes gasta em brincadeiras coletivas fora de casa, agora brincam na sala, no quarto, no espaço exíguo de apartamentos pouco espaçosos?

“Antes da pandemia, mulheres gastavam, em média, o dobro de horas semanais que os homens em atividades de cuidados com pessoas e com a casa, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com o confinamento, a tendência é que esse abismo, tenha se agravado, sobrecarregando ainda mais as mulheres”, informa matéria do Jornal Folha de São Paulo, veiculada em 17 de maio de 2020.

Qual a saída para a mulher, submetida a esta condição extrema de trabalho enquanto a pandemia não terminar?

Resposta: a solidariedade, ainda que não seja a solução definitiva para o problema, é o que pode atenuar essa sobrecarga. Solidariedade de maridos, companheiros e também empregadores, visto que detêm o poder de mudar comportamento nas empresas. Para aquelas que compartilham a vida com um companheiro, a saída está na divisão de tarefas. Sabemos que esta solução não é fácil. A questão cultural é um obstáculo colossal. Vale lembrar que não basta os pais ajudarem com os filhos: isso é essencial, sim, mas não é tudo; em tempos de COVID-19, com as ajudantes do lar afastadas em razão do isolamento social, as tarefas domésticas precisam ser feitas pelos moradores da casa, e é altamente desejável que os homens participem de afazeres como lavar a louça, preparar as refeições, limpar a casa, lavar e estender a roupa no varal…

A mulher quase sempre arcou com as responsabilidades do lar sozinha, como já dito aqui, em grande parte devido a uma questão cultural. A pandemia exacerbou essa condição. Não há como negar.

Hoje, a mulher que trabalha em casa sofre tanto ou até mais do que antes da pandemia, ainda que o home office tenha aspectos positivos. Sua jornada e características do trabalho precarizaram-se.

Como se não bastassem as inúmeras dificuldades do desequilíbrio de gênero do trabalho da mulher, a COVID-19 coloca outros, não menos preocupantes. Precisamos refletir sobre este tema.

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