O trabalho invadiu a minha casa

05/10/2012

O que dizer do trabalho que, sem pedir licença, invadiu nossas casas?

Quem deu autorização para o trabalho se instalar no espaço sagrado do lar?

Nossa casa é o nosso local de aconchego, do papo com a família, dos abraços, das histórias que aconteceram de dia, do amor à noite.

Desde que a pandemia levou o dia a dia profissional para dentro dos nossos lares, vieram, em sua companhia, a aflição com prazos, os momentos inevitáveis de estresse e a falta de tempo para a moradia.

O trabalho em casa bagunçou nossas vidas. E, não raro, ele tem exigido nossa atenção com muito mais anseio e urgência do que os membros da nossa família… 

Quem disse que podemos dizer não ao trabalho? Não, não quero saber de você agora! Fique longe de mim! 

Se o trabalho nos provê, alimenta e mantém vivos, temos a opção de rejeitá-lo?

Reuniões que sequer existiriam quando tudo era presencial agora são marcadas em caráter de “urgência” – e assim, lives e mais lives invadem a sala de estar, o quarto que um dia serviu para o descanso, o café da manhã de domingo…

Sim, porque muitos confundem teletrabalho com estar disponível 24 horas, sete dias por semana.

E chegam pedidos e mais pedidos de serviços com começo e sem fim. Para quem é empregado, nasce a subordinação virtual. A greve virtual? Quem é sindicalista realiza assembleia virtual. E o que dizer dos serviços virtuais, a doença virtual do trabalho em casa, o sorriso, as caras e bocas virtuais dos encontros virtuais e também o tímido virtual, que quer participar, mas prefere nem aparecer nessas reuniões à distância? Existe isso agora com o teletrabalho, o sujeito que está, mas ao mesmo tempo não está, nas reuniões. Estranho… 

A revolução promovida pelo teletrabalho é realmente espantosa. Ela criou o trabalhador fantasma: sua presença é sentida, mas não podemos vê-lo ou ouvi-lo.

E como fica o trabalho virtual para a mulher trabalhadora? Que tem que cuidar da casa e da educação virtual dos filhos? Sim, porque o lar foi também invadido pela escola virtual, as mães são majoritariamente responsáveis por esse aspecto da vida de crianças e adolescentes. 

Ser “mulher real” nesse tempo de mundo virtual é um grande desafio.

O lar foi invadido por tudo isso, e mais um pouco.

Lógico que existem coisas boas no teletrabalho: é ótimo ir até a cozinha pegar um café, usar bermuda em dia de calor, não perder horas no trânsito sobrecarregado, não sentir o aperto do transporte público, não se apavorar porque choveu e os semáforos da cidade pararam de funcionar bem na hora do rush… Mas, a despeito desse lado positivo, está sendo muito difícil adaptar-se a ele. Para falar a verdade, nem sabemos ainda quais serão as consequências dessa intersecção casa/trabalho…

Será que surgirão doenças virtuais do trabalho? E como fica essa questão para aquele chefe que gosta muito de controlar todo mundo presencialmente, o chefe dependente dos empregados?  Aliás, sempre achei os chefes dependentes, como disse o poeta Fernando Pessoa. Será que estão satisfeitos com seus teletrabalhadores? Estão satisfeitos com as possibilidades de exercer uma espécie de controle virtual?

O que se sabe é que hoje se trabalha muito mais. E a hora extra, será virtual ou real? E a jornada de trabalho? O teletrabalho está solapando princípios sagrados para o próprio direito do trabalho.

Voltando à invasão da residência pelo trabalho, como fica o abraço real, a conversa real, o jantar real, o almoço real, o beijo real, que o trabalho bagunçou ao invadir o lar? Será que o trabalho vai nos tirar o prazer real e transformá-lo também em virtual? Estou com medo dessa coisa de trabalho em casa. É bom, mas é ruim; é ruim, mas é bom…

Eu já me confundi comigo mesmo, me vendo de camisa social, shorts e havaianas. Quando olhei para mim, não sabia se, da cintura para cima, estava a trabalho… ou se, ao contrário, estava de férias da cintura para baixo…

O trabalho invadiu minha casa, a sua, a nossa. Mudou nossos hábitos, criou outros estranhos.

Ainda não sabemos como tudo isso vai terminar, até porque algumas empresas vão manter o teletrabalho e outras vão voltar para as atividades presenciais.

Será que aqueles que voltarão para o trabalho presencial vão sentir saudades do trabalho a distância? De tudo o que ele proporciona de legal e gostoso? Ou vão dar graças a Deus porque lhe deram adeus? Quem um dia experimentou a liberdade vai se acostumar com o trabalho presencial, mais rígido e menos livre?

Acredito sinceramente que a pandemia provocou a maior a mais profunda revolução no âmbito das relações do trabalho dos últimos tempos. Não há dúvida de que o trabalho em casa é um dos maiores desafios que vamos enfrentar nos próximos anos.

O mundo do trabalho jamais será o mesmo depois da COVID-19.

Tampouco nós seremos os mesmos.

Alguns estão se acostumando com a invasão do lar pelo trabalho, e até o admitem convivendo bem com o invasor. Outros não. Principalmente as crianças, que perderam seus pais para o intruso? Quem disse que criança entende a placa de “estou trabalhando”?

Como se nota, estamos diante de um colossal desafio no âmbito das relações do trabalho, ao lidar com esse invasor.

Vai dar trabalho nos acostumarmos ou nos livrarmos dele.

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